sexta-feira, 6 de junho de 2014



 Eu me convenço a cada dia que o problema da violência
no Brasil está profundamente ligada a questões como: desigualdade social, exclusão social, impunidade, leis existentes que não são cumpridas, falhas na educação familiar, falta de efetividade de políticas públicas... e por aí vai... 
Um dos indicadores mais dolorosos do problema é o do crescimento dos homicídios de adolescentes e jovens entre 15 e 24 anos, e em sua maioria do sexo masculino, pobres, negros, vivendo nas periferias urbanas. Esses são as maiores vítimas da violência e não seus maiores autores, como se pensa. 
Eu penso que medidas mais repressivas nos dão a falsa sensação de solução, de que algo está sendo feito, mas o problema só piora. Por isso, temos que fazer as opções mais eficientes e mais condizentes com os valores que defendemos. 
Defendo uma sociedade que cometa menos crimes e não que puna mais...
Acredito que os problemas são muito mais complexos e não serão superados por abordagens simplórias e imediatistas.
Precisamos de inteligência, orçamento e, sobretudo, um projeto ético e político de sociedade que valorize a vida em todas as suas formas. Nossos jovens não precisam ir para a cadeia, precisam sair do caminho que os leva lá.
Na verdade, não precisamos de leis mais rígidas, mas sim de rigor e ética no cumprimento das leis que já existem. Sem contar que no Brasil é muito comum haver injustiça e preconceito na aplicação das leis. Pobres e negros lotam os presídios enquanto políticos corruptos continuam no poder, abusando dos seus privilégios. Se as leis forem mais rígidas, obviamente essa rigidez também afetará automaticamente o setor excluído da sociedade e não as camadas dominantes. É claro que se um adolescente pobre cometer um crime certamente será preso, mas dificilmente um filho da elite sofrerá a mesma punição...
As vezes me deparo com situações que me faz refletir muito sobre essas questões da violência que nos afligem, e eu penso cá com meus botões...
Temos em casa três filhos; cada um diferente do outro, mas amados e respeitados. Respeito que inclui regras e limites.
Todos estudaram e continuam estudando. Não foi fácil chegar até aqui, tivemos muito luta, mas não faltou o exercício do amor...
E então eu me lembro de um menino que conheci nas ruas,
ele me chamou muita a atenção porque o maior pedaço do sanduiche que eu lhe dava ele dava a seu cão...
(Eu tive a oportunidade de vê-lo três vezes; quando consegui um lugar pra ele em Bh, nunca mais o ví, infelizmente)
O pai?
Ele nunca conheceu; (nunca tive pai não sinhora, ele dizia)...
A mãe?
Uma pobre coitada. Viciada em craque. Simplesmente o abandonara nas ruas de BH 
Eu chorei naquela noite quando ele me contou toda a sua história;
(enxerguei um pedido de socorro nos olhos)
Tinha apenas 10 anos, já roubava pro "chefe", um adulto sórdido.
"LEI DA SELVA"...
Selva que nossos filhos graças a Deus não tiveram a infelicidade de "vivenciar"...
Sabe, acho que o amor e o perdão estão em baixa...
Quando olhamos o "criminoso" somos tomados pelo ódio
e sentimento de vingança, somos despertados pelo desejo de puní-los com rigor...
É claro que somos solidários com o sofrimento pelo qual passa e atinge a família da vítima; e o ódio até é naturalmente reforçado. Porém, apesar de difícil, vale a pena o exercício de tentar pensar no lado do criminoso...
uma vida que poderia ter se tornado mais um brilho para dar luz ao mundo, foi apagada; uma energia que poderia ajudar na transformação do mundo foi interrompida; uma chama criativa que poderia contribuir para melhorar a raça humana, foi extinta, talvez para sempre. Se pensarmos assim, talvez encontremos um espaço para a compaixão e o perdão... porque a vida que fica talvez não sofra menos do que a vida que se foi... Além disso, quando assistimos um jovem que se envereda pelos caminhos da criminalidade, de certa forma nos deparamos com nosso próprio fracasso enquanto sociedade...
Fico triste com "noticias assim" ... É só um desabafo